Ilustração, colagem e edição por Thaís Campolina — Acervo pessoal

antes de mim muitas
botas tênis sapatilhas e sandálias
chinelos não
galochas talvez
pisaram onde a barata morreu
e esmagaram mais
o que está morto há horas

o corpo dessa barata
foi carregado por tantas pisadas
nesse asfalto quente que
nem esterco pode virar
minha pegada foi só mais uma
no meio de tantas

a barata morta
mortíssima
enquanto é massacrada
por calçados humanos
alimenta bactérias
produz toxinas
movimenta a vida
invisível a quem não tem superzoom
ou criatividade
ou conhecimento de biologia
ou tempo para olhar um resto que
nem carcaça será
daqui a 48 horas

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O comício — Benedito José de Andrade

ouço pombos e passarinhos
gatos caçadores na janela
cachorros ansiosos com o barulho
de calçados familiares subindo as escadas
duas obras ou mais na vizinhança
um despertador que se esgoela

bicicletas carros ônibus
dividem espaço
com pessoas e carroças
e sacolinhas de supermercado
apinhadas de lixo

a música parece a de sempre
mas é diferente
alguém matou os galos e as galinhas
que piavam e cantavam
a alguns metros daqui
em plena capital mineira

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Acervo pessoal — Fotografia por Thaís Campolina

duvido dos meus contornos
da largura do meu pulso
do tamanho dos meus braços
da área das minhas coxas
de como ocupo a cama
me espalho pela casa
e pareço refletida
no espelho do banheiro

o desaparecimento
parece inevitável
uma mulher escondida
se dilui em seus pertences
e se aproxima
cada vez mais
de uma coberta
felpuda e confortável

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Colagem analógica por Thaís Campolina — Acervo Pessoal

ninguém queimou livro nenhum
rasgaram alguns poucos
eram sobre direitos humanos
e foi na surdina
no silêncio
no conforto
de uma biblioteca

os livros
ocupavam sua morada
prateleira de direito
provavelmente
em ordem alfabética
para serem desordenados
pelo leitor que não respeita
as regras
e devolve para prateleira
o que lê na mesa

dessa vez
a desordem que veio
não foi um grifo ansioso feito por uma lapiseira
foram páginas e mais páginas rasgadas
inclusive a que tinha uma foto que dizia⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀ditadura
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀nunca mais

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Thaís Campolina

leitora, escritora e curiosa. autora de “eu investigo qualquer coisa sem registro” e “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” https://thaisescreve.com